
Algumas palavras sobre a ida da Bataclã FC a Pelotas em maio de 2010
A proposta da banda sempre foi trabalhar a cor local nas letras, arranjos e o resgate da contribuição afrodescendente para a construção do RS faz parte do conceito central do trabalho. Assim, Pelotas como o útero que faz nascer o sopapo para o resto do Rio Grande do Sul sempre foi objeto de respeito e lugar de conforto para nos aconchegarmos em seus braços de mãe. Estar em Pelotas é visitar uma casa familiar que mesmo que passe algum tempo sempre é um lugar de afeto, sentimentalidade, conforto, tranqüilidade e lugar que recarrega as energias para seguir em frente.
O show de sábado 22/5/2010 teve o nome de "Crenças a Céu Aberto" e tratava da religiosidade do povo gaúcho com especial atenção aos cultos afrobrasileiros, objeto reiterado de abordagem nas letras da Bataclã FC. Dedicamos o show ao Mestre Batista, cidadão pelotense, griô e luthier construtor de sopapos. A magia de vê-lo assistindo nosso show foi algo sem dúvida grandioso e digno de nota. A cidade nos acolheu muito bem, fruto das idas reiteradas que viemos fazendo a essa cidade extremamente rica do ponto de vista cultural. A banda foi novamente acolhida pela cidade pois já estivemos três vezes antes de sábado dia 22/5/2010 em Pelotas tocando com a Bataclã FC. Novos integrantes saíram maravilhados com a forma com que a cidade respeita e admira a banda. Eu, caminhante há mais tempo por essa estrada bataclânica, sabia que seria diferente mas não imaginava a magia e a espiritualidade que se fizeram presentes na apresentação do sábado passado. Momento inesquecível de nossa trajetória, "...só viu e ouviu quem esteve lá."
Depois da ida no sábado à casa do Mestre Batista com a banda inteira em sua casa, com a falta de luz e as reflexões indispensáveis sobre os momentos partilhados na Rua São Jorge, saí pensando em escrever algo assim: "Caminhantes: não existem caminhos. Só existe o andar daquele que segue em frente." O sopapo segue batendo forte e isso é fruto de um momento histórico que partilhamos juntos, aglutinando forças para que esse instrumento siga seu andar contando parte significativa da história desse lugar bem ao sul da América do Sul. A alma da minha gente é mestiça, a poesia é criolla, o sopapo ontem foi batido lá em Pelotas e hoje segue batendo aqui em Porto Alegre num Quilombo que também leva seu nome e num Ventre Livre onde também nasce o sonho e o som. Creio que isso tudo seja uma bela metáfora do mundo, velho lugar bem conhecido de muitos e evidentemente sem fronteiras para aqueles que não se resignam e constantemente são impelidos à ação. O sonho individual partilhado com o próximo torna-se coletivo e o sopapo tem esse poder de juntar a gente, alegrar o povo, abençoar a todos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário